O Brasil é composto por 5.570 municípios distribuídos em 27 estados, dos quais 280 em 17 estados estão localizados ao longo da costa atlântica.
Um novo estudo conduzido por pesquisadores da FEAUSP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP) trouxe à tona um panorama detalhado e inédito da chamada economia azul brasileira — o conjunto de atividades econômicas diretamente ligadas aos recursos marinhos, como petróleo offshore, pesca, turismo costeiro, transporte marítimo e defesa. A pesquisa, publicada na revista científica Ocean Sustainability, revela não apenas a dimensão econômica dessas atividades, mas também sua complexa interligação com o interior do país.
A economia azul refere-se ao uso sustentável dos recursos oceânicos para o crescimento econômico, a melhoria dos meios de subsistência e a sustentabilidade ambiental. De acordo com os autores, o professor Eduardo Amaral Haddad e o pesquisador Inácio Fernandes de Araújo Júnior, a grande inovação deste trabalho foi mapear geograficamente e medir os impactos diretos e indiretos da economia do mar, com base em um modelo inter-regional de insumo-produto.
Em 2019, a economia azul representou 2,91% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e 1,07% dos empregos no Brasil. No entanto, ao considerar os efeitos indiretos, como a interdependência com cadeias produtivas fora da costa, o impacto sobe para 6,39% do PIB e 4,45% do emprego. “É como se eu retirasse uma planta do solo e viesse junto toda a raiz”, explica Haddad. “Essa interconexão econômica é o que faz o mar chegar a Minas Gerais”.
A pesquisa também revelou que o setor mais representativo na composição do PIB azul é a extração de petróleo e gás natural, que responde por 60,4% da produção. Em seguida, vêm as atividades de administração pública e defesa (7,4%) e armazenagem e transporte (7,3%). Ainda que a atividade petrolífera concentre o maior valor agregado, o estudo destaca a diversidade econômica do litoral brasileiro.
Diversidade regional: do petróleo à pesca artesanal
O estudo identificou nuances regionais significativas: enquanto o Sudeste — especialmente os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo — concentra 82% da produção direta, baseada principalmente no petróleo offshore e transporte marítimo, o Nordeste se destaca por sua especialização em turismo costeiro e pesca artesanal. “O que percebemos são várias nuances regionais nas economias costeiras e isso tem implicações importantes para o desenho de políticas de desenvolvimento sustentável”, observa Haddad.
Entre os 280 municípios costeiros brasileiros, 50 se destacam por concentrar 90% da atividade econômica ligada ao mar. “Do total de 280 municípios costeiros, a maior parte dos mais relevantes está no Estado do Rio de Janeiro, muito em função da exploração de petróleo”, ressalta o professor Eduardo Haddad.
Apesar da relevância econômica do mar, o Brasil ainda enfrenta desafios para consolidar políticas públicas eficazes no setor. O país conta com instrumentos como a Política Nacional para os Recursos do Mar e a Política Marítima Nacional, mas, segundo os autores, falta articulação entre elas.
A proposta do estudo é justamente oferecer subsídios técnicos para o planejamento de políticas mais bem calibradas à realidade de cada território. “A lógica é permitir que políticas públicas regionais sejam mais eficazes, ao considerar as especificidades locais e os efeitos em cadeia que vão além da faixa costeira”.
A metodologia desenvolvida pela equipe da FEAUSP já começou a ser aplicada em outras regiões com forte dependência da economia marítima, como Ilha da Madeira, Açores e Peru. “Nossa intenção é contribuir com decisões ambientais e econômicas mais justas e territorialmente sensíveis, tanto no Brasil quanto no exterior”, conclui Haddad.
O estudo contou com apoio da FAPESP, por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas e de uma bolsa de pós-doutorado voltada à análise de riscos e impactos de eventos extremos.
O artigo completo, intitulado Shades of Blue: the regional structure of the ocean economy in Brazil, pode ser acessado aqui.
Cacilda Luna
